José Vítor Malheiros in Jornal O Público

Pode ferir sensibilidades, mas como já o velho provérbio dizia, “quem diz a verdade não merece castigo”!

E aqui vai um texto de opinião, do Jornal O Público, com autoria de José Vítor Malheiros:

 

Voltaire dizia que “quase toda a História é uma sequência de atrocidades inúteis”. A frase adapta-se como uma luva ao “programa de ajustamento” a que Portugal foi submetido nos últimos anos pelo Governo de Passos Coelho, pelos seus “parceiros” europeus e pelo FMI. As atrocidades a que fomos submetidos não são os horrores da guerra que estavam na mente do filósofo francês, mas continuam a ser as velhas misérias sociais e um novo tipo de miséria moral de que Passos Coelho ou Paulo Portas são simultaneamente propagandistas e exemplos.

As misérias sociais estão à vista: desemprego, precariedade, subemprego, emigração forçada, salários mais baixos, pensões mais baixas, aumento da pobreza e da miséria extrema, mais pessoas sem qualquer rendimento e sem apoios sociais, mais crianças pobres, mais velhos pobres, mais crianças com fome, menos acesso à saúde, menos acesso à educação, mais abandono escolar, menos serviços públicos, mais depressão.

A miséria moral é aquela que foi sendo insidiosamente instilada na sociedade pela atitude do poder e pelo seu discurso, pelo seu recurso despudorado à mentira sistemática tornada banal, pelo seu uso da desconfiança como instrumentos de manipulação do público.

Não é surpreendente que, depois de Passos Coelho, de Paulo Portas, de Miguel Relvas, de Maria Luís Albuquerque, de Poiares Maduro tenhamos passado a considerar comum a falta de honorabilidade dos governantes, fazendo crescer o descrédito na democracia. Hoje vê-se como inevitável a promiscuidade entre políticos e negócios e aceitamos que a verdade, como antes acontecia na guerra, seja a primeira baixa da política.

O Governo conseguiu difundir uma cultura de desprezo pelos velhos e pelos doentes, apresentando-os como gastadores de recursos sem préstimo e como abusadores dos direitos sociais. Conseguiu impor um clima de confronto entre desempregados e trabalhadores, apresentando a estabilidade de emprego como pecaminosa e um obstáculo à competitividade. Conseguiu lançar uma guerra de gerações entre velhos “privilegiados” por terem pensões e jovens a quem foi dito que estavam em risco de nunca receber reformas devido aos “privilégios” dos seus pais e avós. O Governo conseguiu minar consensos sociais laboriosamente construídos ao longo de 40 anos de democracia, como o acordo sobre a necessidade de investir na escola inclusiva, na formação de alto nível e na investigação – que passou a ser referida na narrativa oficial como uma actividade “pouco produtiva” e longe da “economia real”. O Governo conseguiu apresentar sistematicamente a máquina do Estado como uma “gordura” improdutiva, um aparelho inútil e despesista, formado por burocratas preguiçosos e incompetentes, pondo trabalhadores do sector privado contra funcionários públicos e destruindo uma filosofia de serviço público e uma ética de trabalho com séculos de consolidação, para melhor desmantelar o Estado social. E impôs por todos os meios possíveis a agenda neoliberal segundo a qual o trabalho é uma mera mercadoria sem dignidade particular, cujo valor deve ser tão reduzido quanto possível.

A miséria moral que este panorama evidencia pode ser menos visível do que os dramas da pobreza, mas é infinitamente mais grave, porque abre fracturas de hostilidade e desconfiança na sociedade que levam muitos anos a reparar.

O sucesso ímpar do Estado social após a Segunda Guerra Mundial não se deveu apenas aos serviços que o Estado fornecia, mas ao clima de estabilidade e de cooperação, de confiança nos outros e no futuro que esses serviços possibilitaram. O grande sucesso do Estado social foi a derrota da insegurança e do medo – do medo da doença, do desemprego, do futuro.

A grande herança do governo PSD-CDS no final do “programa de ajustamento” é a reinstituição do medo e da insegurança como elemento central da vida social e como instrumento estatal de “regulação social”. E, com ele, a desconfiança e a desesperança. Dividir para reinar é uma receita eficaz, como todos sabemos.

E a grande herança do Governo PSD-CDS na prática política é a crescente banalização da mentira e a glorificação do despudor. O sofrimento não nos deixou melhor do que antes. As atrocidades só serviram os saqueadores.

A “saída limpa” que o Governo anunciou este fim-de-semana não é nem uma saída nem limpa, como qualquer pessoa com um mínimo de honestidade admite – porque a fragilidade da nossa situação financeira é igual ou pior do que era, porque permanecemos submetidos a uma tutela externa com direito de veto de facto das políticas nacionais. Mudámos apenas de suserano: antes eram os nossos “parceiros” europeus, amanhã serão os “mercados”. A diferença entre um “programa cautelar” e uma “saída limpa” é a que existe entre o lume e a frigideira. A chantagem é a mesma, apenas muda o agente. E a instabilidade é maior.

Quando a UE refere os “progressos impressionantes” que Portugal realizou, faz um exercício de hipocrisia. Estamos economicamente mais pobres e socialmente mais frágeis. Mais temerosos e mais divididos. Só pode achar que isto é um sucesso quem tivesse este objectivo.

Translation

Can hurt sensibilities, but as ever the old saying goes, “says the truth does not deserve punishment”!

And here’s the text of the opinion of The Public Journal, authored by Jose Vitor Malheiros:

 

Voltaire said that “almost all history is a sequence of useless atrocities.” The phrase fits like a glove to the “adjustment program” that Portugal has undergone in recent years by the government of Pedro Passos Coelho, by their European “partners” and the IMF. The atrocities that were submitted are not the horrors of war that were on the minds of the French philosopher, but still the old social woes and a new kind of moral misery that Passos Coelho and Paulo Portas are both propagandists and examples.

Social misery are in sight: unemployment, job insecurity, underemployment, forced emigration, lower wages, lower pensions, increased poverty and extreme poverty, more people without any income and without social support, poorer children, older poor more hungry children, less access to health care, less access to education, most school leavers, fewer public services, more depression.

The moral poverty is one that was being insidiously instilled in society by the power and attitude of his speech for his unabashed use of systematic lying made ​​banal by its use of mistrust as instruments of manipulation of the public.

Not surprisingly , after Passos Coelho , Paulo Portas, Miguel Grasses , Maria Luís Albuquerque , Poiares Maduro we come to consider the lack of common conduct of rulers , growing discredit democracy . Today it is seen as inevitable promiscuity among politicians and business and accept that truth , as happened before the war , is the first casualty of politics.

The Government succeeded in spreading a culture of contempt for the old and the sick , presenting them as spenders of funds as worthless and social rights abusers . Managed to impose a climate of confrontation between unemployed and employed, and has job stability as sinful and an obstacle to competitiveness . Could launch a war between generations old ” privileged” to have pensions and youth who have been told they were at risk of never receiving reforms due to the ” privileges ” of their parents and grandparents . The Government could undermine social consensus laboriously constructed over 40 years of democracy , as the agreement on the need to invest in inclusive schools , in high-level training and research – which happened to be mentioned in the official narrative activity as a ” little productive ” and away from the ” real economy ” . The Government has systematically present the state machine as a “fat ” unproductive , useless spender and apparatus formed by lazy and incompetent bureaucrats , putting private sector workers against public servants and destroying a public service philosophy and work ethic with centuries of consolidation, to better dismantle the welfare state . And imposed by all possible means the neoliberal agenda according to which the work is a mere commodity with no particular dignity , whose value should be as low as possible

The moral misery that this overview highlights may be less visible than the tragedies of poverty, but it is infinitely more serious because open fractures of hostility and mistrust in society that take many years to repair.

The unparalleled success of the welfare state after the Second World War was not only due to the services that the state provided, but the climate of stability and cooperation, trust in others and in the future these services enabled. The great success of the welfare state was the defeat of insecurity and fear – the fear of illness, unemployment, the future.

The long legacy of government PSD-CDS at the end of “adjustment program” is the reinstatement of fear and insecurity as a central element of social life and as a state instrument of “social regulation”. And with it, distrust and hopelessness. Divide and rule is an effective recipe as we all know.

And the great heritage of the Government PSD-CDS in political practice is the increasing trivialization of the lie and the glorification of shamelessness. The suffering did not leave us much better than before. The atrocities only served looters.

The “clean out” the Government announced this week-end is neither an exit nor clean, as anyone with a minimum of honesty admits – because the fragility of our financial situation is the same or worse than it was, because we remain subjected to an external protection with de facto veto right of national policies. We switched just suzerain: before were our European “partners” tomorrow will be the “markets”. The difference between a “precautionary program” and a “clean exit” is that between the fire and the frying pan. Blackmail is the same, just change the agent. And instability is enhanced.

When the EU refers to the “impressive progress” that Portugal held, is an exercise in hypocrisy. We are economically poor and socially disadvantaged. More fearful and more divided. Just might find that this is a success who did this.

José Vítor Malheiros in Jornal O Público

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