National Geographic’s Photo of the day

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National Geographic's Photo of the day

Birds of Bharatpur
Photograph by Sreekumar Krishnan, National Geographic Your Shot

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José Vítor Malheiros in Jornal O Público

Pode ferir sensibilidades, mas como já o velho provérbio dizia, “quem diz a verdade não merece castigo”!

E aqui vai um texto de opinião, do Jornal O Público, com autoria de José Vítor Malheiros:

 

Voltaire dizia que “quase toda a História é uma sequência de atrocidades inúteis”. A frase adapta-se como uma luva ao “programa de ajustamento” a que Portugal foi submetido nos últimos anos pelo Governo de Passos Coelho, pelos seus “parceiros” europeus e pelo FMI. As atrocidades a que fomos submetidos não são os horrores da guerra que estavam na mente do filósofo francês, mas continuam a ser as velhas misérias sociais e um novo tipo de miséria moral de que Passos Coelho ou Paulo Portas são simultaneamente propagandistas e exemplos.

As misérias sociais estão à vista: desemprego, precariedade, subemprego, emigração forçada, salários mais baixos, pensões mais baixas, aumento da pobreza e da miséria extrema, mais pessoas sem qualquer rendimento e sem apoios sociais, mais crianças pobres, mais velhos pobres, mais crianças com fome, menos acesso à saúde, menos acesso à educação, mais abandono escolar, menos serviços públicos, mais depressão.

A miséria moral é aquela que foi sendo insidiosamente instilada na sociedade pela atitude do poder e pelo seu discurso, pelo seu recurso despudorado à mentira sistemática tornada banal, pelo seu uso da desconfiança como instrumentos de manipulação do público.

Não é surpreendente que, depois de Passos Coelho, de Paulo Portas, de Miguel Relvas, de Maria Luís Albuquerque, de Poiares Maduro tenhamos passado a considerar comum a falta de honorabilidade dos governantes, fazendo crescer o descrédito na democracia. Hoje vê-se como inevitável a promiscuidade entre políticos e negócios e aceitamos que a verdade, como antes acontecia na guerra, seja a primeira baixa da política.

O Governo conseguiu difundir uma cultura de desprezo pelos velhos e pelos doentes, apresentando-os como gastadores de recursos sem préstimo e como abusadores dos direitos sociais. Conseguiu impor um clima de confronto entre desempregados e trabalhadores, apresentando a estabilidade de emprego como pecaminosa e um obstáculo à competitividade. Conseguiu lançar uma guerra de gerações entre velhos “privilegiados” por terem pensões e jovens a quem foi dito que estavam em risco de nunca receber reformas devido aos “privilégios” dos seus pais e avós. O Governo conseguiu minar consensos sociais laboriosamente construídos ao longo de 40 anos de democracia, como o acordo sobre a necessidade de investir na escola inclusiva, na formação de alto nível e na investigação – que passou a ser referida na narrativa oficial como uma actividade “pouco produtiva” e longe da “economia real”. O Governo conseguiu apresentar sistematicamente a máquina do Estado como uma “gordura” improdutiva, um aparelho inútil e despesista, formado por burocratas preguiçosos e incompetentes, pondo trabalhadores do sector privado contra funcionários públicos e destruindo uma filosofia de serviço público e uma ética de trabalho com séculos de consolidação, para melhor desmantelar o Estado social. E impôs por todos os meios possíveis a agenda neoliberal segundo a qual o trabalho é uma mera mercadoria sem dignidade particular, cujo valor deve ser tão reduzido quanto possível.

A miséria moral que este panorama evidencia pode ser menos visível do que os dramas da pobreza, mas é infinitamente mais grave, porque abre fracturas de hostilidade e desconfiança na sociedade que levam muitos anos a reparar.

O sucesso ímpar do Estado social após a Segunda Guerra Mundial não se deveu apenas aos serviços que o Estado fornecia, mas ao clima de estabilidade e de cooperação, de confiança nos outros e no futuro que esses serviços possibilitaram. O grande sucesso do Estado social foi a derrota da insegurança e do medo – do medo da doença, do desemprego, do futuro.

A grande herança do governo PSD-CDS no final do “programa de ajustamento” é a reinstituição do medo e da insegurança como elemento central da vida social e como instrumento estatal de “regulação social”. E, com ele, a desconfiança e a desesperança. Dividir para reinar é uma receita eficaz, como todos sabemos.

E a grande herança do Governo PSD-CDS na prática política é a crescente banalização da mentira e a glorificação do despudor. O sofrimento não nos deixou melhor do que antes. As atrocidades só serviram os saqueadores.

A “saída limpa” que o Governo anunciou este fim-de-semana não é nem uma saída nem limpa, como qualquer pessoa com um mínimo de honestidade admite – porque a fragilidade da nossa situação financeira é igual ou pior do que era, porque permanecemos submetidos a uma tutela externa com direito de veto de facto das políticas nacionais. Mudámos apenas de suserano: antes eram os nossos “parceiros” europeus, amanhã serão os “mercados”. A diferença entre um “programa cautelar” e uma “saída limpa” é a que existe entre o lume e a frigideira. A chantagem é a mesma, apenas muda o agente. E a instabilidade é maior.

Quando a UE refere os “progressos impressionantes” que Portugal realizou, faz um exercício de hipocrisia. Estamos economicamente mais pobres e socialmente mais frágeis. Mais temerosos e mais divididos. Só pode achar que isto é um sucesso quem tivesse este objectivo.

Translation

Can hurt sensibilities, but as ever the old saying goes, “says the truth does not deserve punishment”!

And here’s the text of the opinion of The Public Journal, authored by Jose Vitor Malheiros:

 

Voltaire said that “almost all history is a sequence of useless atrocities.” The phrase fits like a glove to the “adjustment program” that Portugal has undergone in recent years by the government of Pedro Passos Coelho, by their European “partners” and the IMF. The atrocities that were submitted are not the horrors of war that were on the minds of the French philosopher, but still the old social woes and a new kind of moral misery that Passos Coelho and Paulo Portas are both propagandists and examples.

Social misery are in sight: unemployment, job insecurity, underemployment, forced emigration, lower wages, lower pensions, increased poverty and extreme poverty, more people without any income and without social support, poorer children, older poor more hungry children, less access to health care, less access to education, most school leavers, fewer public services, more depression.

The moral poverty is one that was being insidiously instilled in society by the power and attitude of his speech for his unabashed use of systematic lying made ​​banal by its use of mistrust as instruments of manipulation of the public.

Not surprisingly , after Passos Coelho , Paulo Portas, Miguel Grasses , Maria Luís Albuquerque , Poiares Maduro we come to consider the lack of common conduct of rulers , growing discredit democracy . Today it is seen as inevitable promiscuity among politicians and business and accept that truth , as happened before the war , is the first casualty of politics.

The Government succeeded in spreading a culture of contempt for the old and the sick , presenting them as spenders of funds as worthless and social rights abusers . Managed to impose a climate of confrontation between unemployed and employed, and has job stability as sinful and an obstacle to competitiveness . Could launch a war between generations old ” privileged” to have pensions and youth who have been told they were at risk of never receiving reforms due to the ” privileges ” of their parents and grandparents . The Government could undermine social consensus laboriously constructed over 40 years of democracy , as the agreement on the need to invest in inclusive schools , in high-level training and research – which happened to be mentioned in the official narrative activity as a ” little productive ” and away from the ” real economy ” . The Government has systematically present the state machine as a “fat ” unproductive , useless spender and apparatus formed by lazy and incompetent bureaucrats , putting private sector workers against public servants and destroying a public service philosophy and work ethic with centuries of consolidation, to better dismantle the welfare state . And imposed by all possible means the neoliberal agenda according to which the work is a mere commodity with no particular dignity , whose value should be as low as possible

The moral misery that this overview highlights may be less visible than the tragedies of poverty, but it is infinitely more serious because open fractures of hostility and mistrust in society that take many years to repair.

The unparalleled success of the welfare state after the Second World War was not only due to the services that the state provided, but the climate of stability and cooperation, trust in others and in the future these services enabled. The great success of the welfare state was the defeat of insecurity and fear – the fear of illness, unemployment, the future.

The long legacy of government PSD-CDS at the end of “adjustment program” is the reinstatement of fear and insecurity as a central element of social life and as a state instrument of “social regulation”. And with it, distrust and hopelessness. Divide and rule is an effective recipe as we all know.

And the great heritage of the Government PSD-CDS in political practice is the increasing trivialization of the lie and the glorification of shamelessness. The suffering did not leave us much better than before. The atrocities only served looters.

The “clean out” the Government announced this week-end is neither an exit nor clean, as anyone with a minimum of honesty admits – because the fragility of our financial situation is the same or worse than it was, because we remain subjected to an external protection with de facto veto right of national policies. We switched just suzerain: before were our European “partners” tomorrow will be the “markets”. The difference between a “precautionary program” and a “clean exit” is that between the fire and the frying pan. Blackmail is the same, just change the agent. And instability is enhanced.

When the EU refers to the “impressive progress” that Portugal held, is an exercise in hypocrisy. We are economically poor and socially disadvantaged. More fearful and more divided. Just might find that this is a success who did this.

José Vítor Malheiros in Jornal O Público

Um pouco de poesia… / A litlle bit of poetry

Tabacaria de Fernando Pessoa

        TABACARIA

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno – não concebo bem o quê –
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

 

Àlvaro de Campos, 15-1-1928

 

Translation

 

The Tobacco Shop, Fernando Pessoa

I’m nothing.
I’ll always be nothing.
I can’t want to be something.
But I have in me all the dreams of the world.

Windows of my room,
The room of one of the world’s millions nobody knows
(And if they knew me, what would they know?),
You open onto the mystery of a street continually crossed by people,
A street inaccessible to any and every thought,
Real, impossibly real, certain, unknowingly certain,
With the mystery of things beneath the stones and beings,
With death making the walls damp and the hair of men white,
With Destiny driving the wagon of everything down the road of nothing.

Today I’m defeated, as if I’d learned the truth.
Today I’m lucid, as if I were about to die
And had no greater kinship with things
Than to say farewell, this building and this side of the street becoming
A row of train cars, with the whistle for departure
Blowing in my head
And my nerves jolting and bones creaking as we pull out.

Today I’m bewildered, like a man who wondered and discovered and forgot.
Today I’m torn between the loyalty I owe
To the outward reality of the Tobacco Shop across the street
And to the inward reality of my feeling that everything’s a dream.

I failed in everything.
Since I had no ambition, perhaps I failed in nothing.
I left the education I was given,
Climbing down from the window at the back of the house.
I went to the country with big plans.
But all I found was grass and trees,
And when there were people they were just like the others.
I step back from the window and sit in a chair. What should I think about?

How should I know what I’ll be, I who don’t know what I am?
Be what I think? But I think of being so many things!
And there are so many who think of being the same thing that we can’t all be it!
Genius? At this moment
A hundred thousand brains are dreaming they’re geniuses like me,
And it may be that history won’t remember even one,
All of their imagined conquests amounting to so much dung.
No, I don’t believe in me.
Insane asylums are full of lunatics with certainties!
Am I, who have no certainties, more right or less right?
No, not even me . . .
In how many garrets and non-garrets of the world
Are self-convinced geniuses at this moment dreaming?
How many lofty and noble and lucid aspirations
–Yes, truly lofty and noble and lucid
And perhaps even attainable–
Will never see the light of day or find a sympathetic ear?
The world is for those born to conquer it,
Not for those who dream they can conquer it, even if they’re right.
I’ve done more in dreams than Napoleon.

I’ve held more humanities against my hypothetical breast than Christ.
I’ve secretly invented philosophies such as Kant never wrote.
But I am, and perhaps will always be, the man in the garret,
Even though I don’t live in one.
I’ll always be the one who wasn’t born for that;
I’ll always be merely the one who had qualities;
I’ll always be the one who waited for a door to open in a wall without doors
And sang the song of the Infinite in a chicken coop
And heard the voice of God in a covered well.
Believe in me? No, not in anything.
Let Nature pour over my seething head
Its sun, its rain, and the wind that finds my hair,
And let the rest come if it will or must, or let it not come.
Cardiac slaves of the stars,
We conquered the whole world before getting out of bed,
But we woke up and it’s hazy,
We got up and it’s alien,
We went outside and it’s the entire earth
Plus the solar system and the Milky Way and the Indefinite.

(Eat your chocolates, little girl,
Eat your chocolates!
Believe me, there’s no metaphysics on earth like chocolates,
And all religions put together teach no more than the candy shop.
Eat, dirty little girl, eat!
If only I could eat chocolates with the same truth as you!
But I think and, removing the silver paper that’s tinfoil,
I throw it on the ground, as I’ve thrown out life.)

But at least, from my bitterness over what I’ll never be,
There remains the hasty writing of these verses,
A broken gateway to the Impossible.
But at least I confer on myself a contempt without tears,
Noble at least in the sweeping gesture by which I fling
The dirty laundry that’s me–with no list–into the stream of things,
And I stay at home, shirtless.

(O my consoler, who doesn’t exist and therefore consoles,
Be you a Greek goddess, conceived as a living statue,
Or a patrician woman of Rome, impossibly noble and dire,
Or a princess of the troubadours, all charm and grace,
Or an eighteenth-century marchioness, decollete and aloof,
Or a famous courtesan from our parent’s generation,
Or something modern, I can’t quite imagine what–
Whatever all of this is, whatever you are, if you can inspire, then inspire me!
My heart is a poured-out bucket.
In the same way invokers of spirits invoke spirits, I invoke
My own self and find nothing.
I go to the window and see the street with absolute clarity.
I see the shops, I see the sidewalks, I see the passing cars,
I see the clothed living beings who pass each other.
I see the dogs that also exist,
And all of this weighs on me like a sentence of exile,
And all of this is foreign, like everything else.)

I’ve lived, studied, loved, and even believed,
And today there’s not a beggar I don’t envy just because he isn’t me.
I look at the tatters and sores and falsehood of each one,
And I think: perhaps you never lived or studied or loved or believed
(For it’s possible to do all of this without having done any of it);
Perhaps you’ve merely existed, as when a lizard has its tail cut off
And the tail keeps on twitching, without the lizard.
I made of myself what I was no good at making,
And what I could have made of myself I didn’t.
I put on the wrong costume
And was immediately taken for someone I wasn’t, and I said nothing and was lost.
When I went to take off the mask,
It was stuck to my face.
When I got it off and saw myself in the mirror,
I had already grown old.
I was drunk and no longer knew how to wear the costume hat I hadn’t taken off.
I threw out the mask and slept in the closet
Like a dog tolerated by the management
Because it’s harmless,
And I’ll write down this story to prove I’m sublime.

Musical essence of my useless verses,
If only I could look at you as something I had made
Instead of always looking at the Tobacco Shop across the street,
Trampling on my consciousness of existing,
Like a rug a drunkard stumbles on
Or a doormat stolen by gypsies and it’s not worth a thing.

But the Tobacco Shop Owner has come to the door and is standing there.
I look at him with the discomfort of a half-twisted neck
Compounded by the discomfort of a half-grasping soul.
He will die and I will die.
He’ll leave his signboard, I’ll leave my poems.
His sign will also eventually die, and so will my poems.
Eventually the street where the sign was will die,
And so will the language in which my poems were written.
Then the whirling planet where all of this happened will die.

On other planets of other solar systems something like people
Will continue to make things like poems and to live under things like signs,
Always one thing facing the other,
Always one thing as useless as the other,
Always the impossible as stupid as reality,
Always the inner mystery as true as the mystery sleeping on the surface.
Always this thing or always that, or neither one thing nor the other.

But a man has entered the Tobacco Shop (to buy tobacco?),
And plausible reality suddenly hits me.
I half rise from my chair–energetic, convinced, human–
And will try to write these verses in which I say the opposite.

I light up a cigarette as I think about writing them,
And in that cigarette I savor a freedom from all thought.
My eyes follow the smoke as if it were my own trail
And I enjoy, for a sensitive and fitting moment,
A liberation from all speculation
And an awareness that metaphysics is a consequence of not feeling very well.
Then I lean back in the chair
And keep smoking.
As long as Destiny permits, I’ll keep smoking.

(If I married my washwoman’s daughter
Perhaps I would be happy.)
I get up from the chair. I go to the window.

The man has come out of the Tobacco Shop (putting change into his pocket?).
Ah, I know him: it’s unmetaphysical Esteves.
(The Tobacco Shop Owner has come to the door.)
As if by divine instinct, Esteves turns around and sees me.
He waves hello, I shout back “Hello, Esteves!” and the universe
Falls back into place without ideals or hopes, and the Owner of the Tobacco Shop
smiles.

Àlvaro de Campos, 15-1-1928

Portuguese; trans. Richard Zenith

 

Livro do mês: Uma pequena homenagem

Deixo aqui esta mensagem , a jeito de homenagem e de agradecimento, a um dos maiores escritores que já existiu, um romântico  e um inconformado por natureza. É como muita tristeza que o vejo partir, mas a sua alma e a sua memória, tal como a sua obra manter-se-á eternamente.

Não há grande coisa a dizer a não ser obrigado por tudo !

Até já Gabo!

Livro de Maio:

Cem Anos de Solidão de Gabriel García Márquez

Gabriel José García Márquez, considerado um dos autores mais importantes do século XX  foi um dos escritores mais admirados e traduzidos no mundo, com mais de 40 milhões de livros vendidos em 36 idiomas.

Foi laureado com o Prémio Internacional Neustadt de Literatura em 1972, e o Nobel da Literatura de 1982 pelo conjunto da sua obra, que entre outros livros inclui o “Cem Anos de Solidão”.

Considerada uma das obras mais importantes da literatura latino-americana, tem a peculiaridade de ser umas das mais lidas e traduzidas de todo o mundo.

A história passa-se numa aldeia fictícia e remota na América Latina chamada Macondo, esta pequena povoação foi fundada pela família Buendía – Iguarán.

A primeira geração desta família peculiar é formada por José Arcadio Buendía e Úrsula Iguarán. Este casal teve três filhos: José Arcadio, que era um rapaz forte, viril e trabalhador; Aureliano, que contrasta interiormente com o irmão mais velho no sentido em que era filosófico, calmo e terrivelmente introvertido; e por fim, Amaranta, a típica dona de casa de uma família de classe média do século XIX. A estes, juntar-se-á Rebeca, que foi enviada da antiga aldeia de José Arcadio e Ursula, sem pai nem mãe.

A história desenrola-se à volta desta geração e dos seus filhos, netos, bisnetos e trinetos, com a particularidade de que todas as gerações foram acompanhadas por Úrsula (que viveu entre 115 e 122 anos). Esta centenária personagem dará conta que as características físicas e psicológicas dos seus herdeiros estão associadas a um nome: todos os José Arcadio são impulsivos, extrovertidos e trabalhadores enquanto que os Aurelianos são pacatos, estudiosos e muito fechados no seu próprio mundo interior.

Os Aurelianos terão ao longo do livro a missão de desvendar os misteriosos pergaminhos de Melquíades, o Cigano, que foi amigo de José Arcadio Buendía. Estes pergaminhos tem encerrados em si a história dramática da família e apenas serão decifradas quando o último da estirpe estiver às portas da morte.

Translation

May Book:

I leave this message here, the way to honor and thank you to one of the greatest writers who ever lived, and a romantic by nature nonconformist.

There is not much to say except thank you for everything!

One Hundred Years of Solitude by Gabriel García Márquez

Gabriel José García Márquez, considered one of the most important authors of the twentieth century was one of the most admired and translated writers in the world, with more than 40 million books sold in 36 languages.

Was awarded the Neustadt International Prize for Literature in 1972 and the Nobel Prize for Literature 1982 for his whole work, which among other books include “One Hundred Years of Solitude.”

Considered one of the most important works of Latin American literature, has the peculiarity of being one of the most widely read and translated around the world.

The story is set in a fictional and remote village called Macondo in Latin America, this small village was founded by the Buendía family – Iguarán.

The first generation of this peculiar family is formed by Jose Arcadio Buendia and Ursula Iguarán. This couple had three children: José Arcadio, who was a strong, virile and industrious young man; Aureliano, which contrasts with the inner elder brother in the sense that it was philosophical, terribly quiet and introverted; and finally, Amaranta, the typical housewife from a middle class of the nineteenth century. To these, will join Rebecca, who was sent to the old village of Jose Arcadio and Ursula, without father or mother.

The story unfolds around this generation and their children, grandchildren, and great-grandchildren, with the particularity that all generations were accompanied by Ursula (who lived between 115 and 122 years). This century-old character will realize that the physical and psychological characteristics of their heirs are associated with a name: José Arcadio all are impulsive, outgoing and workers while the Aurelian are to sleepy, scholars and very closed to its own inner world.

The Aurelian will have the task of unraveling the mysterious parchments of Melquiades, the gypsy, who was a friend of José Arcadio Buendía. These scrolls have closed itself the dramatic story of the family and will only be deciphered when the last strain is at death’s door.